Cabo Verde não tem falta de empresas. Tem empresas que o mercado não encontra.

Há uma frase que ainda se ouve com demasiada frequência no meio empresarial cabo-verdiano: “marketing não é prioridade.”
Às vezes vem disfarçada de outras formas. “Primeiro precisamos vender.” “Quando crescermos, investimos nisso.” “Temos Instagram, é suficiente.” Ou aquela que talvez melhor explique o problema: “Nós já somos conhecidos.”
Num mercado pequeno, onde o passa-palavra tem um peso enorme e muitas relações comerciais começam com um contacto no WhatsApp, esta lógica pode funcionar durante algum tempo. Mas um país que quer competir internacionalmente não pode continuar a construir empresas para serem encontradas apenas por quem já sabe que elas existem.
E os números ajudam a perceber a dimensão do problema.
Cabo Verde tinha 18.641 empresas ativas em 2024, empregando 94.714 pessoas e movimentando aproximadamente 437 mil milhões de escudos. Segundo o diagnóstico do setor privado do Banco Mundial e da IFC, 73,6% são microempresas, embora representem apenas 3,5% das vendas. As MPME, no seu conjunto, representam quase 98% das empresas formais e cerca de 55% do emprego.
Temos, portanto, muitas empresas. A pergunta é: quantas estão verdadeiramente preparadas para serem encontradas, consideradas e escolhidas por alguém que ainda não as conhece?
Num país turístico, ser invisível custa dinheiro
Imaginemos um turista que está a preparar uma viagem para Cabo Verde.
Antes de chegar, procura onde dormir, onde comer, o que visitar, onde alugar um carro, que experiências fazer. Pesquisa no Google, consulta o Maps, lê avaliações, compara sites e plataformas e começa a decidir onde vai gastar o seu dinheiro muito antes de aterrar.
Agora pensemos numa pequena empresa cabo-verdiana que poderia receber parte desse dinheiro, mas que não aparece nessas pesquisas.
Para aquele consumidor, essa empresa praticamente não existe.
E isto é particularmente crítico numa economia em que o turismo representa cerca de 25% do PIB diretamente, podendo chegar aos 44% considerando os efeitos indiretos. Em 2024, Cabo Verde recebeu 981.354 turistas e, em 2025, os estabelecimentos hoteleiros receberam cerca de 1,25 milhões de hóspedes, 95,5% deles estrangeiros.
Temos centenas de milhares de consumidores a chegar depois de pesquisarem online, mas uma parte relevante das empresas locais continua pouco preparada para competir pela atenção dessas pessoas.
No turismo, 40% das empresas não disponibilizam os seus produtos através de plataformas de terceiros e 30% não permitem reservas online no próprio site. O Banco Mundial chegou ainda a identificar Cabo Verde em apenas um dos quatro principais marketplaces internacionais de turismo analisados, classificando a situação como uma desvantagem competitiva.
O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É comercial.
O turista vem. O dinheiro também. Mas para onde vai?

Existe uma contradição no nosso modelo turístico que merece mais atenção.
Cabo Verde consegue atrair visitantes internacionais, mas uma parte importante da relação comercial com esses visitantes continua nas mãos de intermediários internacionais.
Segundo a IFC, três ou quatro grandes cadeias internacionais concentram cerca de 90% da oferta de alojamento, enquanto um único operador turístico controla 47% do mercado nacional, 52% no Sal e 83% na Boa Vista. Entre hotéis independentes, cerca de 80% do negócio pode chegar através de operadores internacionais; nas unidades afiliadas, a dependência chega aos 98%.
Os intermediários são necessários e fazem parte do turismo moderno. O problema começa quando deixam de ser um canal e passam a ser o único canal.
É como ter uma loja cheia, mas continuar a pagar a outra pessoa para apresentar cada cliente ao balcão.
É precisamente aqui que marketing deixa de significar “fazer posts” e passa a significar capacidade de adquirir clientes diretamente.
“Mas nós já temos Facebook e Instagram.”
Ter Instagram não significa ter uma estratégia digital, da mesma forma que ter um cartão de visita nunca significou ter uma estratégia comercial.
Uma empresa pode publicar todos os dias e continuar invisível no momento da compra.
O consumidor que pesquisa “restaurant near me”, “boat tour Cape Verde” ou “car rental Praia” não procura necessariamente a empresa com o feed mais bonito. Procura aquela que consegue encontrar, compreender e em que consegue confiar.
Um Perfil da Empresa no Google atualizado, localização correta, avaliações, fotografias, website funcional, informação em inglês, reservas online, SEO, GEO, AEO e presença nas plataformas adequadas podem parecer detalhes isolados. Juntos, são infraestrutura comercial.
Uma pesquisa da Ipsos citada pela Travel Oregon concluiu que empresas com informação completa no Google eram consideradas 2,7 vezes mais credíveis, tinham 70% mais probabilidade de receber uma visita física e 50% mais probabilidade de gerar uma compra.
Antes de comprarmos um produto, compramos confiança.
O marketing continua a ser tratado como decoração
Talvez este seja o centro da questão.
Durante anos, confundimos marketing com publicidade. Depois confundimos marketing com redes sociais. Agora corremos o risco de o confundir com Reels.
Marketing começa antes disso.
Começa quando uma empresa percebe quem quer conquistar, porque essa pessoa deveria escolhê-la, onde procura soluções, que objeções terá e que experiência precisa encontrar para confiar.
É também por isso que alguns exemplos de Cabo Verde são tão reveladores.
A IFC aponta que o turismo de iate continua limitado, entre outros fatores, porque brokers internacionais encontram pouca informação sobre as marinas cabo-verdianas. O programa para nómadas digitais conseguiu apenas 194 candidatos, perante uma meta de 1.000 por ano, tendo a promoção limitada sido identificada como uma fragilidade. E o turismo cultural representa apenas cerca de 1% dos gastos dos turistas.
Temos cultura, gastronomia, música, património, artistas, artesãos e experiências únicas.
Mas ter valor não significa saber transformá-lo em procura. Uma cachupa extraordinária que ninguém encontra continua a ser extraordinária apenas para quem já conhece o restaurante.
Marketing não salva uma má empresa. Mas uma boa empresa também não vive apenas de ser boa.
Nenhuma campanha compensa permanentemente um mau produto ou um mau serviço.
Mas o contrário também é verdade: qualidade que ninguém conhece tem pouco valor comercial.
O mercado não recompensa automaticamente a melhor empresa. Frequentemente recompensa quem consegue combinar qualidade com visibilidade, distribuição, reputação e confiança.
Na Origami, acreditamos precisamente numa comunicação construída com estratégia, rigor e intenção, porque comunicar não deveria ser apenas ocupar espaço; deveria ajudar negócios a criar valor e construir relações capazes de durar.
Cabo Verde está cada vez mais exposto ao mundo. O turismo cresce, a diáspora continua economicamente relevante e o consumidor é cada vez mais digital. Talvez, por isso, a discussão sobre se vale a pena investir em marketing já esteja ultrapassada.
A pergunta que realmente interessa é outra: quando o mundo procurar por Cabo Verde, quantas empresas cabo-verdianas estarão preparadas para ser encontradas? Artigo escrito por: Carmen Monteiro - Diretora Criativa da Origami



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