Há milhões a pesquisar Cabo Verde agora. Estão a encontrar tudo, menos a sua empresa.
- Origami Lab
- 22 de jun.
- 5 min de leitura

Photo by Maddie Meyer - FIFA/FIFA via Getty Images
Um prato milanesa com o nome Vozinha na Argentina. Uma pizza, numa pizzaria de um bairro desconhecido no Brasil, que leva o nome do guarda-redes. Um jornal português que foi à procura do prato favorito de Vozinha numa tasca lisboeta. Canais e criadores de conteúdo do mundo todo, que não perderam tempo e correram para garantir visibilidade junto da seleção cabo-verdiana.
E agora, depois do empate eletrizante contra o Uruguai, juntam-se ainda mais vozes a este coro global. Todos, de uma maneira ou de outra, estão a aproveitar ao máximo a janela do tempo que ainda está aberta. Agarraram no limão e souberam fazer dele uma bela limonada.|
A verdade é que, para países como o Brasil, os EUA ou até Portugal, há limões a crescer por toda a parte. O que falta, muitas vezes, é um bom olheiro. Alguém que saiba não só onde estão os limões, mas também quando e como colhê-los antes que sequem ao sol. Em Cabo Verde, esta capacidade de colheita mostra-se ainda fraca.
Nunca houve um acontecimento desta dimensão. Nunca houve um Vozinha. Muito menos uma celebridade nascida em poucas horas, com seguidores a multiplicar-se de cerca de 50 mil para mais de 14 milhões antes mesmo de o jet-lag passar, e a continuar a crescer depois do segundo jogo da fase de grupos, frente ao Uruguai, bicampeão mundial.
E é precisamente por ser a primeira vez que vale a pena pararmos e perguntarmos: vamos saber surfar essa onda?
Janelas que se abrem (e que se fecham sem avisar)
Há um detalhe incómodo sobre as janelas do tempo em comunicação: elas não têm alarme. Não mandam mensagem a avisar que estão a fechar. Um dia o mundo inteiro está a perguntar "onde fica Cabo Verde?" e, poucas semanas depois, já ninguém pergunta nada, porque a atenção (esse recurso tão escasso quanto água dessalinizada nas ilhas) já foi para outro lado, para outra seleção, para outro meme.
É por isso que, em comunicação estratégica, costumamos dizer que a oportunidade não se gere, gere-se a preparação para ela. Quem não tinha nada pronto quando a bola entrou em jogo, dificilmente vai conseguir improvisar uma estratégia decente a meio da partida. E é exatamente aqui que outros países, com muito menos sorte mediática do que Cabo Verde tem agora, já nos mostraram como se faz.
Outros países já decifraram este jogo
A Islândia, em 2016, não tinha um Vozinha. Tinha um grito. O famoso "thunder clap" islandês, feito pelos próprios adeptos nas bancadas do Euro, transformou-se em fenómeno viral mundial. O país, que até ali era apenas conhecido por géiseres e auroras boreais, viu o seu turismo disparar nos anos seguintes…e não foi por acaso. Houve uma máquina de comunicação, pequena mas afiadíssima, pronta a transformar curiosidade em reserva de hotel.
O Marrocos, no Mundial de 2022, contou uma história parecida, mas em escala ainda maior. A campanha histórica da seleção marroquina até às meias-finais transformou o país no destino mais pesquisado de África durante semanas. As autoridades de turismo marroquinas, que já vinham trabalhando a sua presença digital havia anos, simplesmente abriram a porta para receber quem chegava a bater. Quem não tinha porta preparada, ficou a ver a multidão passar ao lado.
E mais recentemente, a Curaçau, uma ilha ainda mais pequena do que Cabo Verde, que se qualificou para este mesmo Mundial 2026 e quebrou recordes de país com menor população a marcar presença numa fase final, tornou-se, da noite para o dia, assunto obrigatório em redações de meio mundo. A diferença entre aproveitar esse momento ou deixá-lo escapar não está na sorte. Está em quem já tinha o terreno preparado para semear, muito antes da bola rolar.
Em Cabo Verde, a bola já não está no meio-campo
Aqui está o ponto desconfortável, mas necessário, deste artigo: Cabo Verde ainda não tem essa porta preparada. Temos a história. E que história, agora ainda mais reforçada! Depois do empate histórico sem golos com a Espanha, na estreia absoluta dos Tubarões Azuis em Mundiais, a seleção voltou a surpreender o mundo: esteve a vencer o Uruguai, bicampeão mundial, sofreu a reviravolta nos descontos do primeiro tempo, e ainda assim foi buscar um 2-2 dramático, com Hélio Varela a aproveitar um erro da defesa adversária para selar mais um resultado histórico. Cabo Verde soma agora dois pontos, ocupa o terceiro lugar do Grupo H e mantém viva a possibilidade de chegar aos dezasseis avos de final. Um cenário que, há poucas semanas, parecia pura ficção. Tudo se vai decidir já no próximo dia 26 de junho, em Houston, frente à Arábia Saudita.
Temos a simpatia mundial, a diáspora a vibrar em todos os continentes, um guarda-redes de 40 anos… mas, infelizmente, ainda não temos, de forma generalizada, empresas e instituições preparadas para transformar esta curiosidade momentânea em relação duradoura. E isto leva-nos a duas siglas que, até agora, foram tratadas em Cabo Verde como assunto de "gente da informática": SEO e GEO.
SEO e GEO: as duas siglas que ninguém estava a ouvir, até agora

O SEO (Search Engine Optimization) é, em termos simples, a arte de garantir que, quando alguém pesquisa "hotéis em Cabo Verde", "imobiliárias em Cabo Verde" ou "produtos cabo-verdianos", é a sua empresa que aparece, e não um blog estrangeiro escrito por alguém que nunca pisou uma das nossas ilhas. Há anos que isto devia ser prioridade para qualquer negócio cabo-verdiano com ambição internacional. Continua, na maioria dos casos, a ser tratado como um detalhe técnico dispensável.
O GEO (Generative Engine Optimization) é o primo mais novo do SEO, e está a crescer ainda mais depressa. É a arte de garantir que, quando alguém pergunta a uma inteligência artificial (ChatGPT, Gemini, Perplexity): "o que visitar em Cabo Verde" ou “onde “dormir em Cabo Verde, essa inteligência artificial tenha, nos seus dados, a informação certa, estruturada e atualizada sobre a sua marca. Se a sua empresa não existir de forma clara, consistente e bem escrita online, simplesmente não existe para estas ferramentas. E cada vez mais gente pergunta a elas antes de perguntar a um motor de busca tradicional.
Resumindo: milhões de pessoas estão, neste preciso momento, a pesquisar "Cabo Verde" pela primeira vez na vida. Algumas vão acabar numa página da Wikipédia. Outras, num blog de viagens espanhol. Poucas, infelizmente, vão acabar a falar diretamente com uma empresa cabo-verdiana, porque essa empresa, simplesmente, ainda não fez o trabalho de casa para ser encontrada.
A colheita começa agora
Não escrevemos este artigo para apontar o dedo. Escrevemos para dizer, com toda a clareza: ainda há tempo, mas o relógio já está a correr, e mais depressa do que ontem. A janela continua aberta, e agora sabemos com mais precisão até quando, pelo menos nesta fase: até ao apito final do jogo decisivo contra a Arábia Saudita, no dia 26 de junho. Depois disso, tudo dependerá do que os Tubarões Azuis ainda nos vão dar de espetáculo nesta Copa. Mas nenhuma janela fica aberta para sempre só porque a vista é bonita.
É aqui que entra o trabalho que fazemos todos os dias: roteiros estratégicos pensados antes de a oportunidade aparecer, gestão de conteúdos e redes sociais que sabem aproveitar o momento certo, narrativas de marca que conectam o local ao global, e uma abordagem que une rigor humano à velocidade que a inteligência artificial hoje permite. Não para correr atrás da bola depois de ela já ter passado, mas para estar posicionado antes do apito inicial.
Cabo Verde acabou de mostrar ao mundo, por duas vezes consecutivas, que um arquipélago pequeno pode segurar (e até surpreender) algumas das melhores seleções do planeta, durante noventa minutos inteiros (mais o tempo de jogo a mais). Resta agora perguntar: estaremos também preparados para segurar, durante mais do que noventa minutos, a atenção do mundo que, finalmente, está a olhar para nós?
Assinado por:
Carmen Monteiro | Diretora Criativa da Origami

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